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Pedra Bonita, mas em pleno abandono
Postado por: Fábio Souza

Famoso local onde cariocas e turistas do mundo inteiro costumam ir para voar sobre a Cidade Maravilhosa com asas delta ou para-pentes. Trata-se da Rampa de Vôo Livre do Rio de Janeiro, instalada na Pedra Bonita, no Setor C do Parque Nacional da Tijuca, considerada a segunda maior floresta urbana do planeta.

É uma montanha verdadeiramente fantástica que emana uma vibração super positiva e que nos presenteia com uma paisagem sem igual de diversas áreas de nossa Cidade Maravilhosa. Mas infelizmente a beleza natural não reina absoluta, sendo obrigada também a conviver com o descaso do poder público, a falta de sensibilidade de muitos visitantes e a constante degradação ambiental que perdura ao longo de muitas décadas.

Com cerca de 100 hectares de área, sendo que 15 hectares desmatados, a Pedra Bonita concentra nesta pequena área, todos os problemas sócio-ambientais existentes no Parque Nacional da Tijuca.

A história da Pedra Bonita está intimamente relacionada com a história colonial do Parque, quando todo o Maciço da Tijuca foi modificado pela ação do homem, com desmatamentos para a criação de fazendas de café e cana-de-açúcar, além da construção de residências particulares. A montanha foi, então, completamente devastada para que suas matas fossem transformadas na lenha que alimentavam os engenhos.

Pelo seu isolamento natural e por não possuir nascentes de água significativas, foi abandonada e não passou por nenhum processo de recuperação até os dias de hoje.

Apesar de muito procurada por aqueles que buscam uma total interação com a natureza e a fantástica vista que ela nos proporciona no topo de sua montanha, muitos problemas acabam desanimando visitantes ou gerando decepção e surpresa nos turistas que constatam o verdadeiro abandono do poder público com o turismo no local: estradas de acesso ao local desertas e sem policiamento, asfalto esburacado (em alguns casos já se transformando em crateras na pista de asfalto antigo) e a completa ausência de funcionários do Ibama ou da Prefeitura do Rio.

A apenas alguns metros da rampa de madeira, incrustada em meio a um cenário indescritível, de onde se tem uma vista privilegiada de Ipanema a São Conrado, passando pelo dorso do Vidigal, uma placa corroída pelo tempo é a única informação possível, escrita em letras que mal se consegue ler:

"Bem-vindo ao Parque Nacional da Tijuca. Você está em uma área de Reserva Mundial da Biosfera da Tijuca, na Pedra Bonita, um dos mais belos exemplares do patrimônio natural. E, a partir de agora, convidado a vivenciar essa combinação de vocações, incluindo a educação ambiental. Divirta-se e lembre: esse patrimônio tem que ser preservado, a qualquer preço, pois ele é a garantia de vida das futuras gerações".

Visitar a Pedra Bonita é uma verdadeira mistura de dois sentimentos: um completo êxtase da fantástica vista que ela nos proporciona em termos de localização e beleza, e a tristeza de um local tão lindo e completamente abandonado que se transformam em ingredientes para um anti-turismo e que nada é feito para se erradicar: chão de terra irregular, nenhum ajardinamento, erosões ao redor da rampa e se espalhando floresta abaixo, nenhum posto de informação ou segurança, lixeiras improvisadas ou mau conservadas e uma precária lanchonete, periodicamente sem sanitários pela falta d'água.

Infelizmente o turismo receptivo no local deixa muito a desejar, demonstrando a total ausência da Prefeitura, do Ibama e do Ministério do Turismo e criando uma imagem extremamente negativa. O único estabelecimento no local, como já mencionado, é a lanchonete, administrada de maneira solitária e sem qualquer apoio pelas filhas do ex-vendedor de cana da Pedra Bonita, Valdevino Ferreira, que tem 54 anos e cuja família mora e se diz proprietária legal daquele pedaço do parque, há mais de 90 anos.

"Por isso, nós somos impedidos pelo próprio Ibama de melhorar qualquer coisa aqui, mesmo que gastemos do nosso próprio bolso. O prefeito, que também poderia nos ajudar, só veio na inauguração da rampa. Até trazer luz e água aqui em cima é problema nosso, e não do governo. Os turistas de fora também não entendem isso. Ficam horrorizados pedindo informação, posters, fotos, camisetas e souvenirs que não temos como produzir", lamenta Vilian Ferreira, filha de Valdevino, de 31 anos, que toca o negócio.

Descaso do poder público
Por parte dos usuários da rampa de vôo livre, o lamento pela situação precária também é um consenso, que também tocam seus negócios sozinhos, cobrando R$ 200,00 em média, para cada vôo de 15 minutos de asa delta ou para-pente do alto do parque até as areias de São Conrado.

Segundo o presidente da Associação Brasileira de Vôo Livre, Bruno Batalha Menescal, não existe lugar similar no planeta, em termos de beleza e marketing turístico, para a prática saudável e divulgadora do esporte: "Enquanto países como a Nova Zelândia valorizam e vivem do turismo ecológico e de aventura, aqui no Rio parece que nós trabalhamos na clandestinidade, mesmo recebendo e fazendo encantados uma média de dois mil turistas estrangeiros por mês, advindos de todas as partes do mundo. É uma pena que não nos apoderemos, de uma maneira turística e profissional, de um local maravilhoso e com estatística mundial que temos ali". Há mais de 20 anos exercendo a profissão de instrutor de asa delta, Bruno complementa fazendo um alerta sobre o abandono do lugar: "A situação é séria mesmo e pode causar riscos para os turistas. Já houve um desmoronamento da rampa em 2005 e as erosões continuam aumentando".

A esperança de Bruno é que a atual gestão do Ministério do Turismo volte sua atenção para o local e apóie a Prefeitura "para transformar esse espaço lindo e abandonado em um verdadeiro complexo de ecoturismo que o Rio e o Brasil merecem. A Pedra Bonita não é só um local de vôo livre. Ela é o cartão de visitas natural que temos para a prática de vários outros esportes, como caminhada e montanhismo", apontou.

A prefeitura tem um projeto de recuperação ambiental e turística elaborado pelo Geo-Rio e já autorizado para a execução dos trabalhos de contenção, mas, não se sabe porque ainda não foi efetivado.

No final do ano passado, na então gestão do Ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, uma portaria foi assinada normatizando a conduta e a gestão compartilhada dos parques nacionais com os praticantes deste esporte, através de ONGs representativas, como é o caso da Associação Nacional de Turismo de Aventura. Mas na prática nada foi realizado e até o presente momento nem a prefeitura nem o Ibama se mexem para solucionar o problema.

Não existe outro lugar no mundo, maravilhoso e naturalmente ideal como a Pedra Bonita que, mesmo abandonado e sem divulgação oficial, ainda tendo um Cristo Redentor de companhia, recebe 24 mil turistas por ano. São formadores de opinião e divulgadores turísticos das mais diferentes e distantes nacionalidades, querendo conhecer o Rio como a humanidade sempre sonhou. Como se tivessem asas no lugar dos braços. E a floresta-parque da Tijuca fosse a biodiversidade que eles não têm mais. Mas infelizmente pelo descaso dos órgãos públicos, um dos mais belos pontos turísticos do Rio permanece esquecido e a mercê de sua própria sorte.

Se não bastasse todo esse descaso, outros agravantes que maculam a imagem desse fantástico lugar: lixo, falta de informação, acidentes na estrada de acesso, desmonte de carros, obras irregulares, falta de sinalização, ocupação de cavernas, caça, desmatamentos e incêndios.

Até quando teremos que tolerar essa omissão do poder público? Enquanto nenhuma atitude oficial é tomada, com mãos atadas somos obrigados a ver a deterioração contínua desse lugar que nos presenteia e de graça uma das vistas mais sensacionais de nossa Cidade Maravilhosa.

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