Perdidos nas trilhas
Postado por: Tong Cheong Ming

Ao ligar o computador na página do G1 notícias, deparo com a seguinte manchete: Buscas por rapaz que se perdeu em trilha para a Pedra da Gávea continua. Logo depois tem outra manchete: Continuam buscas por engenheiro desaparecido na Ilha Grande. Segundo o noticiário do caso da Pedra da Gávea, o rapaz (22 anos) ficou para trás (ou foi deixado) pelos outros dois companheiros que desceram mais rápido. E segundo os dois que chegaram ao final da trilha, disseram que tinham levado água e alimentos. No caso da Ilha Grande, o desaparecido é engenheiro (54 anos), é de Brasília e estava acompanhado do filho e mais duas pessoas. Eles fizeram a trilha Abraão - Dois Rios (conhecida como T-14) e quando chegaram lá, o engenheiro disse ao filho que iria pegar uma trilha até Cachadaço (Dois Rios – Cachadaço, T-15) e que voltaria por outro caminho até se encontrarem na Vila do Abraão. São fatos tristes e lamentáveis. Em ambos os casos, várias orientações básicas foram simplesmente ignoradas.
O rapaz, perdido na trilha da Pedra da Gávea, foi resgatado dois dias depois pelos bombeiros na base do Pico dos Quatro. Infelizmente após 16 dias de buscas, o engenheiro de Brasília ainda não tinha sido encontrado na Ilha Grande. Segundo os bombeiros, as chances de um desfecho positivo eram nulas. No dia em que ele se perdeu, caiu uma chuva fortíssima e ventou muito, causando quedas de árvores.
Levar água e comida não é suficiente, dizer que conhece a trilha porque já andou nela há um mês ou uma semana atrás também não é suficiente. Imprevistos acontecem e com freqüência. Por exemplo, depois de uma chuva forte, a trilha muda completamente. É uma passagem que fica alagada, uma árvore que caiu, etc.
Ter uma lista de verificação com todos os materiais que irão auxiliar nesses momentos de dificuldade é sempre bom. A mochila fica mais pesada? Fica, mas é necessária, depois se torna um hábito. Itens como caixa de primeiros socorros, lanterna e pilhas, uma pequena faca, apito, capa de chuva, bússola, etc, são obrigatórios na mochila. Mapas das trilhas também são importantes. Se aquele senhor que se perdeu na trilha Dois Rios – Cachadaço na Ilha Grande tivesse um mapa, iria ver que não tem trilha sinalizada daquele local para a Vila do Abraão. Deveria ter voltado para Dois Rios e depois sim, chegar até Abraão. É aconselhável voltar sempre pelo mesmo caminho, a não ser em trilhas circulares ou travessias.
Uma das coisas mais bonitas que se aprende nas caminhadas é a solidariedade. Por essas andanças mundo afora, deparei com gente de todas as nacionalidades. Línguas e costumes diferentes, mas que nos momentos de aperto, todos se entendiam. Não se deixa ninguém pra trás. É sempre um cuidando do outro. Quando tiver alguém ficando pra trás o melhor é parar e avaliar a situação. Em ultimo caso o melhor a fazer é retornar ou deixar o companheiro em um abrigo seguro e buscar ajuda. Usar de bom senso. A montanha não vai sair do lugar, podemos retornar em outra ocasião. Outro fato importante é o de olhar para trás e conferir como será o caminho na volta. Procure por detalhes do tipo uma pedra ou uma árvore com marcas. O melhor mesmo é usar uma bússola.
Antes de partir para uma aventura, procure se informar sobre a trilha. Veja as condições climáticas. Fale com outros trilheiros que já fizeram o percurso. Planeje sua jornada. Fique atento com o horário de partida e chegada. Lembre-se que na floresta escurece mais cedo, e andar no mato na escuridão não é nada agradável. Por exemplo, descer da Pedra da Gávea às 4 horas da tarde. Fatalmente fará o percurso no escuro. Use roupas e calçados adequados para trilhas. Já vi pessoas subindo o Pico Tijuca de chinelo e até de sandálias de salto. Se bem que os guias nativos das montanhas do Peru usam sandálias, mas isso é outra história. No site da TrilhasRJ tem uma lista com sugestões do que levar na mochila.
Boas trilhas.